Primeira Trienal ArtCut do Vaticano chega a Lisboa: A arte contemporânea como «Escola de Empatia»

Exposição

 A Católica acolhe, a partir deste mês de outubro, a primeira edição da Trienal de Arte Contemporânea das Universidades Católicas (ArtCut), uma iniciativa internacional promovida pelo Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé. Comissariada pelo Cardeal D. José Tolentino de Mendonça e com curadoria-geral de Nuno Crespo, a Trienal reúne mais de uma centena de criadores e sete universidades de três continentes, afirmando o papel das instituições de ensino superior como laboratórios culturais e humanistas.

Inspirada pela Carta Encíclica Magnifica Humanitas, na qual o Papa aponta a urgência de salvaguardar a condição humana perante os riscos de despersonalização colocados pela inteligência artificial e pela mediação puramente digital, a Trienal assume como princípio basilar os «Exercícios de Empatia». Longe de se esgotar num ornamento retórico, a empatia surge nesta iniciativa como uma estrutura ética e uma prática de conhecimento: a capacidade de suspender o julgamento imediato, acolher a experiência alheia e reconhecer o outro na sua singularidade irredutível. A exposição concebe a experiência artística como uma verdadeira escola, sustentando que a arte contemporânea, ao conjugar matéria e sentido, expande a sensibilidade humana e gera comunidade em torno de um diálogo indispensável.

Na sua etapa lisboeta, o projeto organiza-se em torno do sub-tema «Regressar a Casa», com curadoria de Filipa Oliveira, P. João Sarmento, S.J., e Nuno Crespo. O núcleo reflete sobre a condição ancestral do regresso, compreendendo a casa não apenas como uma arquitetura ou abrigo físico, mas enquanto território instável, memória, afeto e geografia interior moldada por histórias de partida, deslocação e pertença.

Esta narrativa desdobra-se por três espaços complementares da cidade de Lisboa, cada um abordando uma perspetiva distinta do habitar. Na Galeria Fundação Amélia de Mello, situada no edifício principal da Católica, as obras expostas até 12 de dezembro de 2026 exploram a dimensão material e construtiva da casa enquanto espaço fundacional para as relações humanas. Na Brotéria, com patente até 14 de novembro de 2026, a reflexão orienta-se para a comunidade prévia e para a matéria partilhada, interrogando o regresso à Natureza e à pertença coletiva. Por sua vez, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC) e Galeria Millennium bcp, patente até 24 de janeiro de 2027, as propostas debruçam-se sobre a casa como espaço psicossomático, onde arquiteturas fragmentadas, vestígios e memórias entrelaçam as vivências do corpo com os fantasmas da ausência e da ruína. Ao congregar obras de figuras como Helena Almeida, Carlos Bunga, Julião Sarmento, Gordon Matta-Clark e Mona Hatoum, a Trienal abre à cidade um espaço fecundo de paragem, questionamento e aproximação ao outro.